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Mostrando postagens com marcador Minha vida na Finlândia. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Voluntariado na Finlândia: recebendo refugiados

Moro em um país de primeiro mundo. Todas as pessoas têm onde morar e o que comer, as crianças vão para a escola e os pais, para o trabalho. Sentia falta do trabalho voluntário, de estar no hospital ou organizando entregas de doações. Mas o que eu poderia fazer aqui? Olhando o mundo com os óculos da Pollyana descubro que ninguém precisa de voluntários na Finlândia.
E é exatamente nesse momento que um grupo enorme de pessoas viram notícia: elas arriscam suas vidas para tentar chegar na Europa. Algumas noites de muito ponderar decido que quero ir, já, para a Grécia. Eu não apenas queria, eu precisava. Eu precisava sentir novamente que minha vida fazia sentido, que eu estava aqui não apenas para discutir política e criar inimizades com os mais acalorados, mas para arrancar sorrisos. E foi assim que eu passei a fazer parte do time de voluntários da Cruz Vermelha.

Infelizmente para fazer voluntariado fora do país é preciso ter realizado alguns cursos, e eu não pude ir. Mas ao por os pés pela primeira vez na sala de reuniões da SPR (Suomen Punainen Risti - Cruz Vermelha da Finlândia), vi um grande número de janelas se abrindo. O país precisa sim de voluntários! Precisa de pessoas doando sangue - eu não sou doadora, tenho pânico de agulha - pessoas visitando asilos, visitando pessoas que moram sozinhas, sabia que o número de depressivos aqui é bem alto? E agora, precisa de pessoas que queiram receber e ajudar na adaptação dos refugiados. E é esse programa que roubou meu coração.
Minha cidade disse que receberia cinco famílias e todas com algo em comum: famílias compostas por mães solteiras e seus filhos. Essas mães são afegãs e fugiram para o Irã, viveram por muito tempo (meses? anos?) em acampamentos para refugiados. Foram escolhidas para recomeçar a vida aqui porque são as mais vulneráveis. Desde fevereiro tenho reuniões e palestras, o que estamos fazendo é algo completamente novo aqui e estamos todos muito ansiosos e apreensivos. Uma das palestras foi sobre a cultura afegã, sobre a guerra, sobre o Talibã. Eu que tenho o coração de papel, precisei me controlar para não deixar as lágrimas escorrerem só de imaginar o que minha família teria vivido.


Sim, minha família! São tantos meses de preparação que já os vejo como parte de minha vida. Nós, os voluntários, nos dividimos em cinco grupos. Cada grupo é responsável por uma família, a minha é a mãe e três filhas. Elas chegam dia 2 de maio! Enquanto isso estamos arrumando a casa onde irão viver (a prefeitura disponibilizou cinco casas)! Procurando doações de camas, sofás, mesas e cadeiras, toalhas, roupas de cama, pratos, copos, tapetes... A casa logo estará pronta para recebê-las e eu mal posso esperar para ver a carinha delas ao descobrirem que agora tem um canto para chamar de lar!
Eu quero aprender a falar algumas palavras em persa. Quero dizer bem vindas, quero me apresentar, quero que se sintam acolhidas! Minha amiga afegã irá me ensinar, mas é tão complicado lembrar de todos esse sons que tenho medo de querer falar um coisa e acabar falando outra... 
Ah, uma tarde por semana eu vou ajudar as crianças com o finlandês! Vou passar a tarde com elas brincando, lendo histórias e aprendendo! Vai ser ótimo para o meu aprendizado e, espero, vamos nos divertir muito juntos! 
Estou tão feliz que queria dividir com você! Conforme o projeto for acontecendo eu venho e conto mais!

terça-feira, 12 de abril de 2016

Meus bons vizinhos

O celular vibrou, nova mensagem. Não era nenhuma fofoca nova, nenhuma declaração de amor, nenhum atestado de saudades... era uma perguntinha que me arrancou uma risada, como são os vizinhos finlandeses? 
Fiquei pensativa, não queria uma resposta evasiva bacanas, normais, simpáticos. Queria uma dissertação sobre o comportamentos dos vizinhos no sul da Finlândia, em especial os da cidade de Kerava. Já me via dando entrevistas na rádio e convidando os conhecidos para o lançamento do livro. Poderia. inclusive, traçar um paralelo com os vizinhos curitibanos. Humilde, já sorria com o sucesso que me aguardava. 
Limpei os óculos, peguei minha caderneta, preparei um chá adoçado com mel e iniciei a minha resposta. Lembrei dos meus vizinhos: a vizinha de baixo que tem um cachorro branco e que eu não sei o nome. Os vizinhos russos do lado direito, dois meninos que sempre passeiam com o cachorro, um bulldog francês preto, e que eu também não sei o nome mas sei a nacionalidade por causa do "bem vindos" da porta. O vizinho do lado esquerdo que já veio aqui em casa avisar, com muita simpatia, que ou a festa acabava naquele instante ou ele chamaria a polícia. O vizinho do andar de cima que toca guitarra e canta, mas que não sei que aparência tem. A vizinha que tem dois filhos pequenos e que me agradeceu quando segurei a porta para que ela passasse com o carrinho do bebê. E o vizinho que se assustou quando abriu a porta do elevador no exato momento em que eu subia as escadas correndo no escuro.
Termino o chá, fecho o caderno. Um parágrafo que poderia se transformar em dois caso eu explicasse onde está Kerava e quantos habitantes tem. Desisto do meu bestseller, abro a mensagem e respondo são simpáticos, te dizem oi quando cruzam com você no corredor mas não te perguntam sobre o tempo. 


quinta-feira, 24 de março de 2016

Con te partirò su navi per mari 2

E hoje, vinte e quatro de março de dois mil e dezesseis, faz um ano que embarquei naquele imenso e lindo navio rumo ao desconhecido. E ainda hoje, escutar a música Con te Partiro do Andrea Bocelli me arrepia e me enche de lembranças e sensações indescritíveis. Sempre que navio partia de um porto, a buzina tocava algumas vezes e logo em seguida essa música começava a tocar por todo o navio. Era o aviso de que o navio estava em movimento! Os tripulantes corriam para o deck para assistir o navio se afastando e a terra ficando cada vez mais longe.

Foto: Arquivo pessoal / Fortaleza
Fortaleza foi a última parada em solo brasileiro, o deck estava concorrido, todos queriam acenar para o Brasil que ficava para trás. Andrea cantava a plenos pulmões con te partirò su navi per mari che io lo so, no non esistono più, con me e eu chorava. Ali, naquele momento, eu percebi o que estava fazendo: estava deixando para trás não apenas o solo brasileiro, mas tudo o que me era conhecido. Um mar me separaria da minha família, dos meus amigos, do meu trabalho, da minha comida, da minha música, dos meus bares, da minha praia, do meu sol...e daquilo que eu sempre chamei de minha vida. 
Dramática como sou, não poderia ter escolhido maneira melhor de imigrar. Apesar dos medos que me invadiram ali, naquele momento, eu sabia que no final tudo daria certo! Meus avôs também viram a Espanha ficar pequenininha enquanto o navio partia, eles também deixaram o conhecido para trás e venceram. O sangue é forte, e como diz minha mãe a fruta não cai longe do pé. 
O que viria depois da longa viagem - foram vinte dias de navio e quinze atravessando a Europa em um mochilão, não havia lido em manual algum. A decisão de vir para a Finlândia foi racional, Mikko queria trabalhar na sua área. Como um casal, sentamos e conversamos quais as opções que tínhamos, decidi que aproveitaria para estudar. E era o plano. Mas a vida quis bagunçar tudo. Eu não passei na segunda e última fase do mestrado, inglês e eu nunca fomos grandes amigos e o nervosismo da entrevista que foi feita via Skype em um café em Alicante, Espanha, deixou isso claro para os professores da universidade. 
Lembro de estar em Varsóvia junto das pessoas que nos receberam em sua casa, rumo a uma noite de diversão, quando li o email que dizia desculpe, você não foi selecionada. Vi o mundo abrir baixo meus pés, e a única coisa que minha cabeça era capaz de pensar era e agora, o que eu vou fazer na Finlândia? Perdi a vontade de conversar e rir, só queria correr e pegar o primeiro avião rumo ao colo da minha mãe. Mas precisei ser forte, engoli o choro e abri um sorriso. Iria aproveitar a noite, a companhia e a viagem, depois me preocuparia com o resto da minha vida.

Nós e os poloneses
E foi assim que a vida me alertou que eu precisaria ser forte! E precisaria aprender a viver sozinha, cortar o cordão umbilical, sabe? Acho que a vida queria me mostrar até onde eu sou capaz de chegar e por isso puxou meu tapete, me fez refazer planos. E eu estou chegando, vida! Meu inglês meia boca evoluiu tanto a ponto de eu assistir filmes e seriados sem legenda, de conversar horas com amigos de diversas partes do mundo, de ler livros e matérias em inglês. Comecei a aprender uma quarta língua, o finlandês. Descobri que o que eu quero estudar no mestrado não é formação docente, é o bilinguismo. Voltei para a vida voluntária e estou muito ansiosa para receber a minha família de refugiados, cuja casa eu estou arrumando com muito carinho e língua estou me esforçando para aprender alguma palavrinhas. 
Imigrar é dolorido, se adaptar em um novo país e em uma nova cultura é difícil, fazer amigos é complicado, aprender uma nova língua é demorado, chorar é comum, mas que graça teria se tudo fosse fácil?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Minha vida na Finlândia: Vamos falar sobre o aborto

O grande número de recém nascido com microcefalia tem aumentado no Brasil e isso reacendeu a discussão sobre o aborto no país. Algumas pessoas acreditam que, sim, a mulher deve ter o direito a decidir sobre sua gravidez. Outros, geralmente pautados por questões religiosas, estão contra a interrupção da gestação.
Legalizar ou não o aborto foi tema de debate na Finlândia na década de 50, nessa época o ato era completamente proibido. Foi então que o Parlamento permitiu que o aborto ocorresse em quatro casos: preservar a integridade física e/ou mental da mulher, a gestante é menor de 16 anos, o feto apresenta alguma deformidade ou a mulher foi vítima de estupro. Vinte anos depois, devido à grande pressão do movimento feminista, uma nova lei sobre o aborto é criada. Essa lei é válida até hoje (criada em 1970, sofreu algumas alterações em 1978 e também em 1985). A nova lei ampliou o leque de circunstâncias em que a gravidez pode ser interrompida, determina até que período é possível interrompê-la e onde isso pode acontecer. A partir de então ficou assim:

Até 12 semanas
- Quando o nascimento, considerando a situação pessoal e familiar da mãe, apresentem à mãe uma carga considerável;
- Quando a mulher foi vítima de algum crime como estupro e incesto;
- Quando a gestante tem menos de 17 anos ou mais de quarenta, ou mais de quatro filhos;
- Quando a mãe ou o pai, ou ambos, possuem alguma doença séria que os impossibilitaria cuidar do filho.

Até 24 semanas
- Quando seguir com a gestação ou o parto possam oferecem riscos mentais e/ou físicos à gestante;
- Quando haja indícios de que a criança nascerá com alguma deformação física ou problema psicológico (apenas se o problema for grave a gravidez poderá ser interrompida após a 12a semana).

Motivos como relações familiares, situação financeira/trabalhista e planos futuros também podem ser usados como justificativa para realizar um aborto. As interrupções após a 12 semana são raras e só ocorrem em casos muito específicos. Nem todas as mulheres que se encaixam nos casos previstos pela lei interrompem a gravidez, apenas as que desejam. E o processo é muito simples, basta ir ao médico e dizer quero realizar um aborto. A decisão é apenas da mulher, o parceiro não é questionado e nem solicitado nesse momento, porém eles aconselham que haja uma conversa sobre o assunto antes de qualquer decisão. O mesmo acontece no caso da solicitante ser menor de idade, os pais não precisam estar presentes e os médicos são obrigados, por lei, a manter segredo. Uma vez que a vontade foi compartilhada, o médico marcará uma consulta no hospital em que o aborto ocorrerá. Essa consulta, na presença de uma enfermeira e um médico, serve para que a mulher decida de que maneira ela deseja interromper a gravidez (remédio ou cirurgia), como será o pós-procedimento e como evitar futuras gestações. Nessa reunião os profissionais mostram que outras alternativas, além do aborto, a mulher tem. Entre a segunda e quarta semana após o aborto ter sido realizado a paciente deverá retornar ao hospital para fazer exames de acompanhamento, inclusive psicológico. Todo o processo acontece através do sistema público de saúde e custa entre 50 e 80 euros.
Legalizar o aborto não fez com que crianças deixassem de nascer no país, apenas evitou que gravidezes indesejadas seguissem. O último censo realizado em 2013, mostra que nasceram 58.134 bebês e foram realizados 10.020 abortos no país. No Brasil o aborto é a quinta causa de morte materna e estima-se que, em um ano, 800 mil mulheres abortam. Por ser um tabu, com pena de três anos de cadeia para quem o comete, não se sabe ao certo o número de mortes ligados à abortos mal sucedidos. O valor pago para interromper uma gravidez em um clínica clandestina pode chegar até 2 mil reais.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

De frente com Gabi: O dia que disse adeus à pílula

Em 1968 mulheres jogavam fora seus sutiãs durante um protesto contra o concurso Miss EUA, dando início a conhecida revolução feminista. Foi nesse mesmo ano que o anticoncepcional ganhou fama, dando início a liberdade sexual feminina. E em 1968 minha mãe nasceu, porém esse fato não faz parte do que vim falar.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Minha vida na Finlândia: Educação finlandesa, história do sucesso

Quando lemos algo de positivo que ocorre em outro país, geralmente Europeu, os comentários da reportagem são os mesmos já no Brasil... Lá dá certo por causa de X e Y sem levarmos em consideração a história daquele lugar, muitas vezes por desconhecimento. Nos últimos anos o pequeno país do norte da Europa tem ganho uma espaço de destaque na mídia quando o assunto é educação e despertado o interesse de muitos, inclusive do nosso governo que está enviando professores da rede federal para vir estudar aqui e conhecer como funciona o sistema educacional finlandês com o intuito de melhorar a educação brasileira. Mas será que isso é possível?

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Que tudo se realize no ano que vai nascer!

A temperatura lá fora está próxima dos 25 graus negativos. Olho pela janela e vejo a neve cobrindo grama, calçada e os galhos das árvores. Alguns corajosos saem com seus cachorros, as crianças caminham puxando seus trenós, o inverno finalmente chegou! Eu fico aqui tomando meu chá e planejando o que quero fazer diferente neste ano.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Minha vida na Finlândia: Lussi ou Lucia? Iniciando as comemorações natalinas!

A Terra gira em torno do sol enquanto dá voltas nela mesma, por isso temos o dia e a noite, e as quatro estações. E é por isso que uma vez por ano, aqui no norte Hemisfério Norte, o dia é tão curto que você pisca e o sol já desapareceu. É o solstício de inverno. No calendário Gregoriano é no dia 21 e no Juliano no 13 de dezembro. Não importa, o importante é você saber que nesse dia precisa caminhar atento pela rua. Ou, se puder, nem sair de casa.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Finlandês, uma língua divertida

Final de dezembro completo quatro meses de curso de finlandês e, devo confessar, estou amando aprender essa língua doida. Em alguns momentos sento e choro de desespero, em outros pego minha caneta colorida e faço um grande círculo englobando todo o texto quando o professor manda circular palavras desconhecidas.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A sabedoria de Nuuskamuikkunen

Oito e trinta da manhã, o vento faz as bochechas gelarem e o nariz ficar vermelho. As luzes estão todas acessas, o sol ainda não apareceu e quando apareça ficará escondido atrás das nuvens. Com sorte a chuva se transformará em neve e o barro se iluminará com o branco dos pequenos flocos. Duas calças, meia de lã, duas luvas, touca e cachecol. O inverno está apenas começando. Agora entendo porque Nuuskamuikkunen em setembro arrumava sua trouxinha para, junto com o sol, tirar férias da Finlândia. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Minha vida na Finlândia: Cinco diferenças culturais

Uma das questões mais legais de conhecer novos lugares e/ou aprender novas línguas é entender sua cultura e seus costumes e desmitificar muitos esteriótipos que formamos a partir de fotos, filmes, livros... Porém, quando você passa a viver em um país diferente, precisa não só reconhecer as diferenças mas se adaptar à elas, afinal, ninguém gosta de se sentir um pato no galinheiro.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Minha vida na Finlândia: a festa de Juhannus

Meia noite e meia
Vocês já passaram pela situação de ter vivido algo muito legal e no momento em que você tenta contar sobre isso aos outros simplesmente não consegue? Aquilo que te fez rir tanto não fez nem cócegas no ouvido do interlocutor. Os motivos de choro não chegam nem perto de comover o outro. E aí você começa a desconfiar que talvez esteja exagerando e que a tua memória não foi tão emocionante assim. É isso que está acontecendo comigo nesse exato momento. Sento para escrever, escrevo, releio e apago tudo. Coloquei músicas (até com Sandy e Júnior eu tentei!), o máximo que consegui foi relembrar e cantar todas as músicas do cd MTV Unplugged. Andei de bicicleta, ouvi os passarinhos cantando e o rio correndo. Até inventar uma memória nova eu tentei!
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